domingo, 21 de agosto de 2011

Um conto de um canto

             Este é um texto triste. Vou logo avisando, porque caso você não queira lê-lo, ainda há tempo de não prosseguir a leitura. Esta é uma história de amor triste, como muitas outras. Mas cada história de amor triste fica mais triste quando observada sozinha. Portanto, aqui vou eu.
             Era uma vez uma Bem-te-vi. A Bem-te-vi era sonhadora que só ela. Gostava de ver castelos em nuvens e imaginar que um dia encontraria um Bem-te-vi bem bonito e gentil, que a convidaria para voar com ela em algum dia comum. Mas ela era despreocupada e vivia voando tranquilamente, atravessando as estações - como tem de ser.
             Porém, certo dia - essa parte da história sempre acontece, mas essa é (tente ver assim) uma história única -, ela esbarrou com um Beija-flor. O Beija-flor era bonito que só ele. Era verde, lilás e amarelo, mas, dependendo do ângulo, suas cores variavam e o deixavam ainda mais belo. "Nossa, você é bonito, hein...", pensou a Bem-te-vi. E ele pensava do lado de lá: "Caramba, que Bem-te-vi singela!" E a química de pensamentos foi se tornando uma razão para que sempre, sem querer, se esbarrassem pelos ares, até que isso se tornasse um hábito.
            Os dois se tornaram amigos. É, amigos. A Bem-te-vi estava apaixonada, mas, por motivos que permanecerão em sigilo - a pedido dela, que foi quem me contou essa história -, eles continuaram amigos. O tempo passou e a problemática secreta também. Os dois eram, então, um casal.
             Você não pode imaginar o quanto a Bem-te-vi amava o Beija-flor! Ela sonhava que os dois nem iam fazer ninho nem nada. Iam morar nas nuvens, de tanta que era a felicidade. O beija-flor desenhava poemas no ar, só para ela! E a singela avezinha ficava toda esmilingüida! Ela fazia um sinal com o olhar e voava toda eufórica para agradecer! Essa avezinha enchia o pequeno Beija-flor de beijos! E era a combinação perfeita nesses fios de poste em frente à minha casa.
             Certa noite, o Beija-flor disse para a Bem-te-vi que não faltava muito para os dois voarem para outro mundo. Cochichou no ouvido dela: "Minha pequena, não vai demorar e nós vamos ter nosso castelinho nas nuvens, lá perto do arco-íris! Eu te amo, minha pequenininha." Vixe, os olhos da pequenina se encheram de alegria e lágrima! "Oh quanta sorte a minha!" pensou a ingênua avezinha. E passou-se aquela bonita noitinha.
             Ao despontar do sol, acordada a sonhadora no fio do poste, bocejou devagarzinho, já esticando a asinha pra abraçar o namoradinho.

(...)


          "Meu amor! Meu amor!" assobiava a Bem-te-vi! E saiu voando por toda a vizinhança! E perguntava a passarinhada se alguém ali, por acaso, avistara o seu colorido Beija-flor. 

(...)

"MEU AMOR! MEU BEIJA-FLOR!"

(...)

(...)

"Snif, snif..." "Snif, snif..."

               "Meu... meu... meu beijo... meu beija-flor..." - sussurrava só consigo a saudade de seu pequeno amor.

                 Passou o dia inteiro, dias inteiros... semanas... meses procurando, chamando e chorando pelo seu amado Beija-flor.

                 Foi aí que apareceu a Sábia Coruja da Noite. Vendo a pobre Bem-te-vi passando mais uma noite em claro, resolveu fazer-lhe companhia. Voaram até a casa da Coruja, no alto da palmeira, e a coruja deu o tapa:

                     "Você é uma Bem-te-vi, hã..."
                    "Com olhos tão grandes e não enxerga... snif..."
                  "Perdão, minha cara. Mas você, sendo Bem-te-vi, não viu o que estava claro, bem debaixo do seu bico."
                    "Não entendi..."
                    "Ele sempre deixou claro que era um Beija-flor, e não Beija-bem-te-vi. E só você não viu, meu bem."

              Oh, como cantava triste a avezinha! A noite toda chorava, e até os castelinhos de nuvens se derretiam em lágrimas quando ouviam o canto dela.

                  A Bem-te-vi bem viu que os beija-flores têm de lindos o que têm de viajantes. Eles vivem de flor em flor, e seria contra a natureza que eles se prendessem a uma Bem-te-vi, por mais doce que ela seja. 

                  A pequena seguiu voando um vôo triste. Um canto triste no canto do poste, e mais um vôo triste. Mas voava alto e voltava pouco a pouco a ver castelos em nuvens. Talvez no mundo dela, só talvez, o Beija-flor voltasse cheio de beijos e sonhos. Ou talvez, ela tivesse outra surpresa.

FIM.


5 comentários:

  1. os beija-flores sempre retornam
    ou ao seu jardim predileto
    ou ao poste encantado
    ...


    beijo carinhoso.

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  2. Oi, Mima. As ilusões são tão gostosas. Acontece parecido com as convicções - elas também deixam as pessoas cegas.
    Bjs!

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  3. Eu acredito que essa Bem-te-vi ainda vai achar o próprio Bem-te-vi dela com quem ela vai se casar e ter muitos passarinhos e será muito feliz só precisa parar d se lembrar do beija-flor

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  4. Outra surpresa. Sou a favor da outra surpresa. Nada do Beija-flor outra vez arrebatando o coração da pequena Bem-te-vi. Porque ela merece castelos nas nuvens que não derretam, merece amor que não se desfaça.


    Um beijo em ti :)

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