quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Reflexo roto

Hoje eu vi meus poros abertos na face do espelho. Eu senti falta do meu cabelo cacheado e me dei conta que minha sobrancelha está desfeita há meses. Hoje eu vi a verdade das minhas falsidades. Meu cabelo é loiro tinto e eu não tenho mais o mesmo rosto de antes. Só meus óculos que não mudaram de formato. Hoje eu vi que eu não faço minhas unhas desde a última estação - e elas crescem desorganizadamente. Eu lembrei o porquê de eu dormir na cama de baixo: é que eu não preciso arrumá-la - só arrastá-la pelas rodinhas. Hoje eu comprei um livro de Fernando Pessoa - e descobri porque eu não sou intelectual. Hoje eu tive vontade de ser intelectual. Eu tive vontade de arrumar a cama, ler livros, cortar as unhas, ter meus cachos de volta - e mudar o formato dos meus óculos. Hoje eu me enxerguei no espelho - e até falei de mim no telefone com a minha amiga irmã. Hoje eu dei de cara com a minha solidão - e com as culpas que admiti partes do cenário desse meu reflexo roto no espelho. Hoje eu tive vontade de, com menor crueldade, ser autenticamente eu.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cabresto

          Estou a um passo do futuro. Eu sei que o caminho que eu vou seguir vai me levar até lá. E eu estou tão feliz por isso! Quando paro para digerir a ideia, meu coração faz cambalhotas dentro de mim! Eu sei que estou bem... um sonho prestes a se realizar, e eu estou ansiosa por tudo o que virá.
          Mas eu não posso parar de pensar nenhum segundo no futuro, porque se eu parar, você me aparece - e eu sei que você não aparece porque quer. De toda forma, a imagem de seu sorriso de barba ralinha me faz lembrar que eu não deveria estar vivendo isso sozinha.

Esquecimento

Anestesia.
Máscara de alívio.
Sensação de quase morte.
Que o coma não passe -
que a velha se disfarce de
donzela -
e me transpasse.
E só me apareça
quando eu for a velha
e já me seja normal
cantar para ela.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Tristeza



Hoje ela suspirou.
Eu sentei ao seu lado.
Nada lhe disse.
Ela sabia
da nossa comum
saudade.

Crombie


Crombie. Música simples e inteligente.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Mudança



Eu vivo mudando
as cores, o timbre, a forma.

Eu inconformada
informo à forma
da reforma informal
das minhas formas
que não se transformam
definidamente.

Indefinida
mudança

metamorfose
formosa
forma
de formar formas.

Contorço-me forçando,
forjando,
formigando pelo novo
momento
mudo
da mudança.

As cores
embotadas
dentro
tingem
dores de vento
sopram
formação:
erosão.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Asco



Caberia coerência?
Sou repugnante.
O maior medo de mim.

Uma semana de porre

          O dia no clube estava quente e pulsante - para uma criança de 7 anos. A piscina era o lar da pequena sereia, que nadava e dançava imaginando-se princesa, filha de Tritão. Nada mais existia fora da água. Só conseguia respirar dentro d'água, por onde via belos corais, peixes falantes e bichos esquisitos - e de onde ouvia as festas que a faziam rodopiar sozinha, entusiasticamente, no meio de algumas crianças normais. Tudo estava perfeito até ela lembrar que sentia fome e sede.
          Saiu do seu habitat quase natural e foi-se saltitando pelo clube, esmorecendo-se de sede. O salão de mesas estava pouco movimentado naquela manhã. Alguns copos sobre a mesa, algumas bolsas e toalhas sobre as cadeiras, algumas poucas mesas ocupadas.
          A sua sede não a permitiu chegar primeiro à mesa de seus pais. A primeira mesa que cruzou no salão sustentava uma taça metade cheia de um refrigerante que parecia geladinho e saciante. A menina não pensou duas vezes e deu um gole caprichado no gentil refrigerante que lhe acalmaria a loucura! Pfffffffffff! Cuspiu no instante seguinte e correu agoniada ao encontro dos pais.
          - Painho, painho! Eu estava na piscina, aí fiquei com sede, aí eu vim para beber alguma coisa, aí eu encontrei uma mesa que tinha um copo de refrigerante bem geladinho, aí eu bebi e aí depois eu cuspi, porque era um refrigerante muito ruim! Eu acho que está estragado! Eca, eca, eca!
          - Calma, filha, calma. Qual foi o refrigerante que você bebeu? Aponte pra mim!
          - Foi naquela mesa ali, ó!
          - Sente aqui. Escute: primeiro, aprenda uma coisa: Nunca beba nada que estiver no copo de outra pessoa, principalmente no copo de alguém que você não conhece. Isso não é bom pra sua saúde. O resto de refrigerante que fica no copo é chamado de sobejo, que quer dizer sobra. Deixa as sobras do refrigerante lá. Não são suas. Segundo: o que você bebeu não foi refrigerante, filha. Aquilo ali é cerveja. E eu não quero mais você bebendo no copo de ninguém. Toda vez que você tiver sede, venha aqui que papai vai dar o que você precisa.
          O coração pulou enlouquecido. "Oh, cerveja! Eu bebi cerveja!" estremeceu a pequena menina. E a conta foi paga, a família entrou no carro para voltar pra casa, tudo indo em paz e tranqüilo com todos. Menos com a pequena sereia, que agora nem se imaginava mais criança, e se via esquecendo de tudo durante uma semana inteira. E parava estremecida, culpando-se de seu primeiro porre de cerveja na vida.

domingo, 25 de setembro de 2011

Alegria


Alegria pode ser palavra monossílaba,
uma mordida na melancia,
uma frase de palavras trocadas.

Alegria pode ser um banco de praça.

Alegria pode ser uma fotografia,
um sapo de língua frouxa,
um passarinho na janela.

Alegria pode ser algodão doce.

Alegria pode ser girar,
pode ser correr,
ou talvez parar.

Alegria pode ser um carrinho de mão.

Alegria pode ser esquecer.
Para alguns, lembrar.
Para outros, ambos, talvez.

Alegria pode ser uma saída.

Alegria pode ser chorar,
calar, dormir, pintar
morrer, nascer, colher.

Alegria pode ser sorvete.

Alegria pode ser um beijo
e pode ser um pedaço de queijo.
Alegria pode ser até desejo.

Alegria pode ser um bocejo.

Alegria pode ser um pão
uma moeda
um fiapo de atenção.

Alegria pode ser João.

Alegria pode ser um telefonema
uma carona
ou um guarda-chuva.

Alegria pode ser um latido na rua.

Alegria pode ser um tapete
um tropeção
uma vergonha.

Alegria pode ser tristeza.

Alegria pode ser um som
uma lâmpada
ou um quarto de escuridão.

Alegria pode ser sangue.

Alegria pode ser nada.
Pode ser qualquer coisa.
Ou tudo.

Pode ser engraçada.
Pode ser um luto.

Pode ser uma flor - ou apenas uma cor.

Alegria.
Pode ser - alegria.
Ser.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma grande descoberta



          Eu tinha entre 5 e 6 anos (isso eu sei, porque foi na antiga casa - mudei para esta de agora quando eu tinha 7 anos). Meu pai  e eu estávamos sentados no tapete azul da sala. Ele assistia televisão; eu escrevia - não lembro se desenhava ou se fazia a lista de chamada dos meus alunos - imaginários. (Eu já era professora naquela época - ê vida.). De todo modo, eu não conseguia ficar totalmente desligada do filme. Era um filme de guerra. Eu escrevia um pouco, mas com o barulho do filme, me distraía e olhava para a televisão. Mas eu via tanto sangue que me assustava e voltava a escrever. E, nesse vai-e-vem de olhares, meu pequeno coração não agüentou: 
- Ai, painho, isso é tão triste!
          Meu pai, com um riso curioso, respondeu-me perguntando:
- O quê, filha?
          E eu, aflita, respondi:
- Esse filme... tão violento...
          Meu pai concordou:
- É, filha. É um filme de guerra. É triste mesmo.
          E eu, crente de minha sabiologia, soltei:
- É muito triste que tanta gente tenha morrido só por causa de um filme!! Quem são essas pessoas que dão a vida assim, só pra fazer um filme? Por que elas fazem isso? Só pra gente assistir depois? Será que obrigam elas a morrerem?
          Meu pai não se agüentou e caiu na risada:
- Não, filha!! Elas não morrem de verdade!
- Como não, pai? Você não tá vendo todo esse sangue?
- É sangue de mentirinha, meu amor! É catchup! Tinta vermelha! Mas não é sangue! É tudo de mentirinha!
          Meus olhos se arregalaram diante daquelas cenas. E cada vez mais eu olhava, tentando acreditar que era mesmo tudo teatrinho. Eu esqueci o desenho (ou a lista de chamada) e fitei os olhos nas pessoas morrendo, no sangue, na guerra e... no alívio de saber que tudo aquilo não passava de um filme.
          Daquele momento em diante, muita coisa mudou. Eu sabia um segredo muito importante. Eu já era crescida, afinal. A verdade veio à tona. Eu talvez estivesse quase pronta para saber que Papai Noel não existia.

Só sabe quem sente

          Quando eu era criança, eu amava as aulas de Ciências. Aprendi, numa delas, que as plantas são seres vivos, porque nascem, crescem, alimentam-se, reproduzem-se e morrem. Desde que soube disso, passei a ter medo de pisar no mato - porque se ele era vivo, ele podia não gostar de mim se eu ficasse pisando nele. E eu também não gostaria de ser pisada assim. Devia doer. 
          Eu lembro de algumas situações em que eu, sutil e desconfiada, olhei pros lados (só pra averigüar se alguém me via) e falei baixinho pra plantinha: "Desculpa! Pisei em você! Ui... essa doeu... Desculpe..." E assim, saía pelas calçadas, pulando entre um matinho e outro e conversando com eles, tentando de tudo para não machucá-los.
         Eu acho que eu achava que ninguém falava com as plantinhas - porque todo mundo achava que elas não entenderiam nada. Mas... pensando, agora, com mais idade: quem já se tornou planta para ser apto a dizer o que ela sente?


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Dia e Noite

Ele abriga em si o brilho de tudo o que se vê.
Ela traz calmaria, quietude, silêncio para escrever.

Ele rege o canto silencioso dos girassóis.
Ela desaquece as vozes dos rouxinóis.

Ele alimenta, fortifica, medicina as flores.
Ela as recolhe, prevenindo-lhes dissabores.

Ele banha de vitaminas os meninos pequeninos.
Ela os embala em seus aquecidos bercinhos.

Ele dá cor aos corpos expostos em maresia.
Ela cintila os olhares dos mergulhados em poesia.

Ele movimenta imperativamente a vida no mar.
Ela sopra grandes ondas para encherem o luar.

Ele vive o tempo esperando só por ela.
Ela o beija com carinho quando o vê na passarela.

Ele não sabe viver sem sua senhora.
Ela não se importa com as inquietas horas.

Ele prepara o mundo para ver a sua princesa.
Ela, para vê-lo, veste-se de marinho e turquesa.

Eles não projetam muito acerca do amanhã.
São plenos de alegria com a recente manhã.

E, assim, o casal me traz a diária certeza
De que basta-me o hoje e sua unitária nobreza. 


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Bonita

Meus olhos hoje armaram-me um complô:
Derrubaram-me os maldizeres
Por causa de uma conspiração.

Meu sorriso aberto riu-se de minhas lágrimas
E tudo de mim se voltou contra mim
Sussurrando-me, sim, o que custo acreditar:
Bonita!

Meneando a cabeça, chamo-lhes bobos
E retrucam-me com contentamento
Rindo-se que só eu, o sentido de o ser, 
não entenda: Bonita.

E, então, se não o entendo, consinto-lhes em silêncio:



terça-feira, 20 de setembro de 2011

Solidão


De onde a vida inóspita vaga
Aspirando o clangor da desbravura
Canta o pássaro inquieto.

Paira-lhe continuamente o inquérito:
é-lhe melhor ser descoberto?

Essência


Essência de flor
Cheiro de flor
Gesto de flor
Coração de flor.

Flor de essência
Essência de cheiro
Cheiro de gesto
Gesto de coração.

Essência de flor
Flor de cheiro
Cheiro de essência
Essência de gesto.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Lar


joelhos endurecidos
memória
e algumas cicatrizes -
foco e privações
rumo
ao mesmo lugar -
memória
vontade de lá:
Lar.

Carta

Amor,

     Eu nem sei se deveria estar escrevendo para você agora. Eu sempre tenho sido tão precipitada que até me dá arrepios imaginar-me sendo assim outra vez. Mas talvez com você eu possa ser diferente. (E até dizer esse talvez me dá tremores). Ah, sim, acredite em mim, que quero acreditar em tudo outra vez.

Amor,

     Perdão por ter dado a outros o amor que só a você cabia. Perdão por não ter entendido que você me esperava do outro lado do rio, pacientemente, como está agora, esperando por mim. Ah, sim, eu achei que você não esperaria... Achei que eles fossem você, ou que, se não eram, poderiam parecer com você, talvez. Achei que eu estivesse vivendo verdades, porque não sabia que tudo iria passar - assim como passam as mentiras. Eu só posso  pedir-lhe perdão por não lhe ter honrado, por não ter seguido segura até os seus braços.

Meu amor,

     Lamento que eu não tenha mais a alegria de antes, nem os sonhos em que você me conduzia em valsa suave. Lamento chegar aos seus braços cansada de sonhar, ferida, surrada, sem forças. Eu queria estar perfeitamente intacta, e desejei que meus olhos brilhassem quando encontrassem os seus. Mas eles agora estão opacos de exaustão - e só desejo descansar em seus braços. Não tenho mais o mesmo carinho, o mesmo vigor para cuidar de você. Agora, eu só tenho uma necessidade imensa - embora me seja custoso admitir - de ser cuidada por você. Ah, sim, eu sempre soube amar - sempre. E sempre me foi melhor amar que ser amada. Mas agora, meu anjo, restou para você uma alma cansada de amar. E talvez só agora - embora você seja o único a quem eu queria ter amado mais do que ter sido amada - agora eu aprenda a ser amada, porque é só o que me cabe - não tenho muita força para fazer mais.

Meu bem,

     Ah, não, não pense que não amo você. Eu sempre amei. Desde que comecei a entender sobre as histórias - sim, não estórias - de amor em contos de fadas, eu sonhei que encontraria você. Eu sei que contos de fadas não existem - mas as histórias de amor existem. E eu deveria ter crido que você me esperava com este seu sorriso e com seus braços-abrigo. Perdão, mais uma vez. Eu amo você, amor. Amo muito. Muito mais do que eu consiga expressar por corpo lesado. Eu sempre vou amar você, ainda que a maior expressão de meu amor seja permitir-me ser amada. Eu deixo que você me cuide, que me abrace, que não me deixe. Eu deixo que você sinta saudades de mim, que você diga o que quiser e até que não diga nada. Eu sempre soube, de alguma forma, que você me queria cuidar. Eu também queria - e quero - cuidar de você. E anseio que o seu amor me cure logo, para que eu ame você com meus olhos, com meus silêncios, com minhas lágrimas de plenitude, meus poemas, meu corpo e coração.

Amor, meu amor...

     Não sei quando você lerá esta carta. Não tenho ideia de quando vou atravessar o rio. Mas essas são palavras que quero estar pronta a dizer-lhe quando eu avistar-lhe de longe. E isso eu escrevo para que você esteja certo de que, por mais cansada que eu esteja, eu acredito que Deus me levará até você. Que seremos um, afinal. Aquela combinação que temos sonhado em ser desde sempre - e a seremos por todos os dias que nos restaram. Eu só quero que tenha certeza de que, mesmo parando no caminho e sofrendo por causa dessa caminhada dolorosa, eu caminho, ainda que devagar, buscando o seu cheiro, o seu cantinho de boca - que talvez eu nunca tenha visto, mas eu sei que vou reconhecer a quilômetros. Sim, eu vou amar cada centímetro do seu corpo, e cada gesto do seu movimento - e cada pensamento que eu vou querer descobrir, e cada palavra que você não vai dizer, e aquelas que você vai sussurrar com seus olhos. Eu vou amar que você me ame como quiser, e o calor de sua mão na minha, e o seu sorriso de quem sabe o que faz ao enxugar meu rosto. Eu vou amar reconhecer você, a quem já amo com minha espera, com minha fé sofrida, mas mantida, com meus sonhos velhos resistindo a morte. 

Meu lindo,

     E agora, encerrando esta carta, eu o observo lendo e acho que eu deveria ter amado só você, sempre. E eu agora só quero ficar aqui, em seu abraço. Não me solte. Não me solte. Quero recuperar o tempo perdido. Fique comigo. Largue esse papel. Largue tudo. Deixe-me agora amar você - que eu esqueço a longa caminhada que fiz, e os meus erros e as minhas culpas e os fantasmas que me assombram. Eu esqueço tudo e as palavras por alguns minutos aqui. E nesse abraço eu me refaço, me reconstruo e sei que tenho a bênção do Céu nesse instante de plena completude. Eu sei que agora, sim, agora, seremos um nó. Nós. Cordão de três dobras não se pode romper.

Com o amor, a vida e a esperança da sua, 
sempre sua.




quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Futuro do Pretérito



Poderia ter, para o sempre, fugido.
Melhor seria tivesse nunca existido.
Bom seria se houvesse esquecido.
Se, enfim, não me restasse vestígio.

Ó, futuro do pretérito!
Enlouquecidamente enfurecido!
Não dê-se agora por vencido -
Não lhe ouço os impropérios.

Ainda me restam alguns amigos
Nesta paupérrima gramática!
E eu, a qualquer um, os prefiro
à sua questionável acústica.

E pouco me importa a borboleta mórbida
Pairando sobre o tenebroso inconsciente -
As condições que pendem dormentes
Caem vencidas às horas sólidas.


Estreito

Cíntia e Sílvia

Quem estreita porta vê
Com estreita visão
Só pode estreitar para si
O que, por si, já estreito é.

Quem pega p'ra provar
O que, pela boca, não deixa passar
Em sua mão, deixa estragar o gosto
Do que de bom sabor lhe seria.

Quem, de longe, tenta alcançar
Aquilo que de si distancia
Só pode ainda alongar
O que, de si, já longe está.

Mas quem percebe a distância exata
E a fim de alcançar, se coloca
E que sorve o que lhe oferecido
Antes que chegue o tempo em que não o mais possa tragar.

E quem estreita porta vê
E, a si, mais que ela, estreito
Descobre que não é escasso
O que aparenta coibir espaço.



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Intimidade


Que segredo contas para ela?

Passo a passo

Passo 
a passo
de lince
de luz
de som.

Passo
simples
curto
ousado
de fé.

Passo
daqui
à frente
a passo
(de) crescente.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Futuro


A pergunta, calada,
interfere-me:
Por que não asas?
A corrida, indefinida, 
(di)fere-me.
E eu, de partida,
- (so)corro-me -
choro-me 
feito
corredeira.

Por que não asas?

Porque meus pés.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Jardim



Lugar cheio de beleza,
Cores, perfume e encantamento.

Momento de reflexão,
Alegria, reconhecimento.

O Autor da Vida
Tudo fez com perfeição.

Entre todas, a margarida
Mora no meu coração.

(Minha mãe - que não é poeta de escrever, mas é poeta de sentir. Fez estes versinhos simples a pedido meu. E ficaram uma gracinha. Amo-te, minha mãezinha... A senhora deveria escrever mais! Este é um pequeno poema - que me diz muito de seu esforço e dedicação. Pequenas coisas que falam muito.)


Tratamento


"É impossível tratar de uma ferida sem tocar nela." [Painho]

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Reparo



Eu seria mesmo eu? O que teria acontecido com toda aquela dor? Quis saber, entrei dentro de mim e vi, por uma janelinha quebrada, aquele velho amor, roncando numa cadeira de balanço enferrujada, na sala meio bagunçada da casa um tanto mal cuidada do terreno do interior. O morador adormeceu. E, para completar, tentei usar a torneira, mas me dei conta de que está faltando água na casa. Estou precisando de reparos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

estranhos queridos mundos

     Numa ensolarada manhã de sábado, conversavam as duas, competindo acerca da intelectuaridade lendária de suas mentes brilhantes:

- O certo seria “as palavras” neste caso, não? Mas, vá. Prossiga.
- As palavras, as palavras – murmurou Alice, aborrecida com a correção. - Eu me referia à palavra, à vez de falar. Quem já viu?... querer me ensinar...
- Pois vá, criatura. Continue. O que é, afinal, esse tal de Non sei lá de quê?
- Non jê ne regrette rien.
- Sim, diga logo duma vez! Não fala porque não sabe... fale a verdade – disse a Lagarta, soberbamente.
- Claro que sei. Significa “formas que me dão forma”, em latim.
- Hum rum... sei... duvido! Hahaha! Você não sabe latim! Vai lá saber o que é isso! Aliás, isso não é francês?
 - Pois que seja! Você também não sabe! Que diferença faz?
- Pois agora você me diz: A palavra é: Famartan. Sabe o que é?
- Pois aposto que você acabou de inventar essa palavra só pra se sobressair.
- Eu não sou você, Alice! Vamos, diga, se é inteligente!
- Só se você me disser qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha...
- É que os dois existem, oras.
- De onde você tirou isso? Nunca se encontrou resposta para isso, oras!
- Na minha cabeça eu tenho uma caixa secreta de achismos. Eu digo o que eu quiser...
- Pois depois não reclama, porque quem fala o que quer... você sabe...


     A essa altura, o Chapeleiro Maluco, que a tudo observava em secreto – escondido por trás de um baobá ali perto – entra, subitamente, na conversa:

- Pois que essa conversa parece conversa de loucos! – disse o maluco sorrindo.
- Que susto! Onde você estava? – perguntou Alice atordoada.
- Ouvindo atentamente esses psicodelismos em prosa! Falando nisso, aceita um pouco mais de caju?
- Que dia é hoje? – perguntou a Lagarta entediada, a fim de chamar a atenção para si.
- Hoje é sábado, suponho. – respondeu Alice pensando se era mesmo sábado.
- Sábado! Ah, sim! Hoje é Sábado de Caju! Aceitam um pouco mais de caju? – perguntou o chapeleiro com empolgação.
- Mas eu não comi nenhum! Como posso querer mais? – pergunta Alice, mais uma vez intrigada pelas perguntas estranhas de sempre.
- Oras, menina Alice! Vejo que tens boa memória... Memória de um confidente! Posso te confidenciar uma coisa?



     O Chapeleiro dirige-se ansioso por confidenciar algo importante ao ouvido de Alice. E Alice inclina o ouvido com curiosidade ao sussurro secreto...

- Ah, não! Não quero mais caju! Não me pergunte isso de novo! – irritou-se Alice, decepcionada com o “segredo”.
- Ai, ai... está na hora de me recolher. Essa conversa está me dando sono... Boa noite... – disse a Lagarta enquanto se escorregava pela folha da roseira.
- Pois eu também já vou! – vira-se Alice com ímpeto e uma pontinha de irritação.
- Ah, não vá ainda, pequena menina! Não se fazem mais meninas como antigamente...
- Por quê? Não acha que sou uma boa menina?
- Ah sim... mas deverias ter estudado sobre a menina Macabéa. Era uma boa moça e não era resmungona como você!
- Argh!
- Pois bem, menina... acho que você é louca. Louca como Macabéa – mas não é boa como ela. Maluca como o Quixote de La Mancha. A partir de hoje, vou coroar-te: Macabéa de La Mancha! Por aqui, vossa Alteza... - fez o Chapeleiro um gesto de honra, conduzindo a menina para uma caminhada.
- Alteza...? Você acha mesmo, é? - perguntou Alice, sentindo-se privilegiada.
- Oh sim, Majestade... deixe-me explicar...

     E Alice seguiu caminhando ao lado do maluco chapeleiro por horas. E enquanto o ouvia falar das histórias de Macabéa, do La Mancha e de outras maluquices, ria-se dentro de si, pensando, ao mesmo tempo, no quanto tudo era muito estranho e muito gostoso por ali.



[Com carinho, a todos que me enviaram poemas - flores - no aniversário do Flores e Flechas.]

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os Quatro Verbos

     A palavra, de alguma maneira - sobrenatural, talvez? - está sempre circundando as situações de nossa vida e caracterizando épocas, trejeitos, sociedades. As palavras também demarcam estações, fases de uma vida, estágios de nossa existência passageira.
     
     Para melhor entender o que quero dizer, observe, por exemplo, nossa infância. Desde que nascemos somos preparados, alimentados com a idéia de ter - nosso lugar, nossos objetos, nosso espaço. Os casais, de modo geral, ao saber que estão "grávidos", providenciam o cantinho do bebê, as roupinhas, o bercinho, os brinquedinhos. Alguns até mudam de casa em busca de um lugar mais adequado para a chegada do neném. A medida que a criança vai crescendo e passa a falar, uma das primeiras coisas que ela aprende a dizer é: é meu! E, desde cedo, o desejo de TER vai se tornando sua prioridade. Então, nossa infância é alicerçada sobre um rochedo de sentimentos fortes que nos tornam territorialistas, egoístas, consumistas. Tudo é nosso. "Não abraça a MINHA mãe!" "Esse brinquedo é MEU!" "Sabia que na MINHA casa TEM três televisões?" "Eu TENHO uma boneca que fala!" E por aí vai.
     
     Quando a fase da adolescência vai chegando, certamente o verbo "ter" ainda está presente. Mas deixa de ser o foco. O adolescente pensa mais no que é do que no que tem. Essa é uma fase, em geral, conflitante, porque o adolescente busca se autoafirmar, encontrar o seu lugar no mundo - lugar de importância, e isso não é um processo simples (até porque - mesmo que o adolescente não se dê conta disso - nós mudamos muito). Então, tudo para o adolescente gira em torno de quem ele é: "Eu odeio roupa branca!" "Véi, detesto futebol!" "Eu sou bruto mesmo! Quando eu quero dizer, eu digo na cara!" "Eu sou anti-social!" "Eu sou amigo de todo mundo!" Eu isso; eu aquilo. Para o adolescente, a formação da personalidade não acontece naturalmente, porque ele não permite - de forma geral. Ele quer construir o próprio eu e começa a criar características - modo de vestir, de falar, de se relacionar, de gostar e de desgostar das coisas - para se sentir alguém com personalidade e aceito pelo grupo. Preocupa-se com o SER alguém.
     
     À medida em que as obrigações vão chegando com mais seriedade, o candidato à condição de jovem adulto começa a mudar naturalmente de foco. Ainda preocupa-se, evidentemente, com quem é e com quem está sendo para si e para os outros. Mas os seus deveres - trabalho, universidade, relacionamentos - lhe conduzem a um outro estágio de prioridade. Ele começa a pensar no que faz da vida. As escolhas que precisa fazer, os caminhos que quer seguir, as decisões tomadas são o referencial para quem se é o que se pode ter na vida. Repare que se uma moça começa a namorar um cara e conta a novidade para a família, a primeira pergunta que fazem a ela não é nem o nome dele nem de onde ela o conhece, mas, sim: "O que ele faz da vida?" Nessa pergunta mora escondido o desejo de saber o que o cara TEM e quem ele É na vida. Estão implícitas perguntas como: "Ele ganha bem?" "É trabalhador?" E hoje, não só os rapazes, mas as moças nessa idade também buscam fazer algo que lhes satisfaçam - ou se preocupam demasiado se fazem escolhas certas no âmbito profissional, familiar, social, político. O que se faz é muito importante. E o que se não faz também. Portanto, FAZER é o grande impasse, o leme deste período da vida - que dura um longo tempo.
     
     Mas, chega um tempo na vida que o mais importante não é o que se tem, nem o que se é, nem o que se faz. Mas o que se teve, o que se foi, o que se fez. Tudo agora faz parte de um arquivo de importantes (ou não) memórias e o que conta, enfim, é o que se sabe. As experiências da vida constituem, afinal, o que aprendemos por meio do que nos tornamos, do que tivemos por meio do que fizemos. Você vai notar que muitos idosos vão contar repetidas histórias de êxitos ou de fracassos, porque eles sabem - e você não. Eles sabem da dor, da derrota, da alegria, do amor, da doença, do trabalho, do dinheiro, de tudo um pouco. Essa é, portanto, a idade do SABER.
     
     E interessante é que a palavra não é - nunca foi - desassociada das vivências, das experiências humanas. As palavras falam sobre as coisas - e as coisas falam das palavras.


(Texto que resolvi escrever baseando-me na exposição do meu pai sobre as palavras que regem a vida humana. Acho que meu pai já está na idade do SABER. =)

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