segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma semana de porre

          O dia no clube estava quente e pulsante - para uma criança de 7 anos. A piscina era o lar da pequena sereia, que nadava e dançava imaginando-se princesa, filha de Tritão. Nada mais existia fora da água. Só conseguia respirar dentro d'água, por onde via belos corais, peixes falantes e bichos esquisitos - e de onde ouvia as festas que a faziam rodopiar sozinha, entusiasticamente, no meio de algumas crianças normais. Tudo estava perfeito até ela lembrar que sentia fome e sede.
          Saiu do seu habitat quase natural e foi-se saltitando pelo clube, esmorecendo-se de sede. O salão de mesas estava pouco movimentado naquela manhã. Alguns copos sobre a mesa, algumas bolsas e toalhas sobre as cadeiras, algumas poucas mesas ocupadas.
          A sua sede não a permitiu chegar primeiro à mesa de seus pais. A primeira mesa que cruzou no salão sustentava uma taça metade cheia de um refrigerante que parecia geladinho e saciante. A menina não pensou duas vezes e deu um gole caprichado no gentil refrigerante que lhe acalmaria a loucura! Pfffffffffff! Cuspiu no instante seguinte e correu agoniada ao encontro dos pais.
          - Painho, painho! Eu estava na piscina, aí fiquei com sede, aí eu vim para beber alguma coisa, aí eu encontrei uma mesa que tinha um copo de refrigerante bem geladinho, aí eu bebi e aí depois eu cuspi, porque era um refrigerante muito ruim! Eu acho que está estragado! Eca, eca, eca!
          - Calma, filha, calma. Qual foi o refrigerante que você bebeu? Aponte pra mim!
          - Foi naquela mesa ali, ó!
          - Sente aqui. Escute: primeiro, aprenda uma coisa: Nunca beba nada que estiver no copo de outra pessoa, principalmente no copo de alguém que você não conhece. Isso não é bom pra sua saúde. O resto de refrigerante que fica no copo é chamado de sobejo, que quer dizer sobra. Deixa as sobras do refrigerante lá. Não são suas. Segundo: o que você bebeu não foi refrigerante, filha. Aquilo ali é cerveja. E eu não quero mais você bebendo no copo de ninguém. Toda vez que você tiver sede, venha aqui que papai vai dar o que você precisa.
          O coração pulou enlouquecido. "Oh, cerveja! Eu bebi cerveja!" estremeceu a pequena menina. E a conta foi paga, a família entrou no carro para voltar pra casa, tudo indo em paz e tranqüilo com todos. Menos com a pequena sereia, que agora nem se imaginava mais criança, e se via esquecendo de tudo durante uma semana inteira. E parava estremecida, culpando-se de seu primeiro porre de cerveja na vida.

2 comentários:

  1. Mima... Como é que pode alguém escrever tão lindamente?!

    Pequena sereia, fica em paz!

    Abração da Macabéa! :D

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