sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma grande descoberta



          Eu tinha entre 5 e 6 anos (isso eu sei, porque foi na antiga casa - mudei para esta de agora quando eu tinha 7 anos). Meu pai  e eu estávamos sentados no tapete azul da sala. Ele assistia televisão; eu escrevia - não lembro se desenhava ou se fazia a lista de chamada dos meus alunos - imaginários. (Eu já era professora naquela época - ê vida.). De todo modo, eu não conseguia ficar totalmente desligada do filme. Era um filme de guerra. Eu escrevia um pouco, mas com o barulho do filme, me distraía e olhava para a televisão. Mas eu via tanto sangue que me assustava e voltava a escrever. E, nesse vai-e-vem de olhares, meu pequeno coração não agüentou: 
- Ai, painho, isso é tão triste!
          Meu pai, com um riso curioso, respondeu-me perguntando:
- O quê, filha?
          E eu, aflita, respondi:
- Esse filme... tão violento...
          Meu pai concordou:
- É, filha. É um filme de guerra. É triste mesmo.
          E eu, crente de minha sabiologia, soltei:
- É muito triste que tanta gente tenha morrido só por causa de um filme!! Quem são essas pessoas que dão a vida assim, só pra fazer um filme? Por que elas fazem isso? Só pra gente assistir depois? Será que obrigam elas a morrerem?
          Meu pai não se agüentou e caiu na risada:
- Não, filha!! Elas não morrem de verdade!
- Como não, pai? Você não tá vendo todo esse sangue?
- É sangue de mentirinha, meu amor! É catchup! Tinta vermelha! Mas não é sangue! É tudo de mentirinha!
          Meus olhos se arregalaram diante daquelas cenas. E cada vez mais eu olhava, tentando acreditar que era mesmo tudo teatrinho. Eu esqueci o desenho (ou a lista de chamada) e fitei os olhos nas pessoas morrendo, no sangue, na guerra e... no alívio de saber que tudo aquilo não passava de um filme.
          Daquele momento em diante, muita coisa mudou. Eu sabia um segredo muito importante. Eu já era crescida, afinal. A verdade veio à tona. Eu talvez estivesse quase pronta para saber que Papai Noel não existia.

4 comentários:

  1. Olha, você tem uma facilidade em descrever fatos com requinte de
    imagens, simplicidade e ritmo.

    Muito bom.


    Beijo carinhoso.

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  2. A melhor verdade chega assim, com questionamentos, e você pode ver que você cresceu, hoje é sempre mais sábia que segundos antes, horas, dias, mêses, anos atrás, porém, uma coisa jamais mudará... o amadurecimento... simplesmente porque nós jamis vamos parar de questionar. Meu carinhoso abraço e um belo fim de semana para ti. Carinho desta sua seguidora amiga Lou Moonrise.

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  3. Mimaaa, quie lindo! Só quando a gente é criança é que faz grandes descobertas, mesmo!
    Quando somos 'grandes'apenas descobrimos coisas que forma guardadas da infância

    Bjo

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  4. Ah...infancia...tempo inocente em que nos expressamos como pensamos e como queremos expressar. O homem só é livre quando não envelhece no solo mais fertil da alma; a inocencia, inocencia de acreditar quando essa credibilidade já foi roubada, de novamente tentar quando essa tentativa já foi frustrada. Aí então entendemos que a vida é um ciclo de simplismente teimar, e teimosia é coisa de criança, por isso o mundo é do adulto que ainda não cresceu.

    PARABÉNS PELO TEXTO E SEUS RICOS DETALHES, ELE NOS LEVAR A MEDITAÇÃO...GRANDE ABRAÇO!

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